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Os magníficos e a ralé

Por   /   29 de setembro de 2017  /   Nenhum Comentário

 

Recentemente, 50 casas foram queimadas e mais de 300 índios foram expulsos de uma reserva em Charrua/RS. Li esta notícia na página do Facebook do jornal “O Informativo Regional”, de Sa­nanduva/RS, para o qual escrevo quinzenalmente.

E como geralmente acontece, os comentários sobre a notícia fo­ram de perder a fé na humanida­de: algumas pessoas reagiram à publicação rindo. Uma moça su­geriu que sua amiga, que defende as minorias e mora em uma casa grande, levasse os índios para lá. Tânia achou tudo muito engraça­do, e escreveu “Hahaha”. Já Na­than recomendou que “fincassem fogo”, e ainda ordenou: “quem tá com pena que adote”. O Douglas também participou, e afirmou que “só não fala o que pensa por que dá cadeia”.

Lá por 1930, um cara cha­mado Adolf, de sobrenome Hitler, também pensava assim. Para ele, os judeus eram o problema da Ale­manha. Mas não só os judeus: os ciganos, os negros, os latinos tam­bém. Na verdade, qualquer um que não fosse alemão. Para Adolf, só ele e os alemães prestavam; o resto era escória, e sequer mere­ciam ser tratados como animais.

Sabem o que Adolf fez? Exa­tamente o que Tânia, Nathan e Douglas sugeriram em seus co­mentários: ele expulsou pessoas de suas casas, tacou fogo, humi­lhou, matou, queimou, torturou e ainda deu risada. E foi assim que surgiu o Terceiro Reich, que termi­nou com milhões de cadáveres e uma Alemanha em destroços.

A ideia do nazismo e a ideia destas criaturas, que comentaram a notícia, é uma só: existem seres humanos melhores do que outros – e “os superiores” obviamente devem esmagar “os inferiores”. Existem NÓS, os magníficos, e existem ELES, a ralé. Para estas pessoas, o ideal seria acabar com todos aqueles com os quais não se identifica – não só os índios, mas também os imigrantes, os vicia­dos, os miseráveis, os mendigos. Qualquer um que destoe delas mesmas. Para estas pessoas, sua vida vale mais do que a vida do índio. Seus direitos são mais im­portantes que os direitos dos vicia­dos. Seu bem-estar é mais urgente que o bem-estar dos imigrantes. Estas pessoas, tal e qual Adolf, acreditam que estão acima das demais.

Durante muito tempo tive pena de gente como a Tânia, o Nathan, o Douglas, e até o Adolf, pois ima­ginava o quão triste deveria ser viver nesta escuridão emocional absoluta. Acreditava que alguém incapaz de ver outro ser humano como ser humano era alguém ex­tremamente infeliz, uns pobres coi­tados, uns ignorantes.

Mas hoje eu penso diferente.

Hoje, ao invés de pena, eu sin­to é medo de gente assim. Medo de que a história mais uma vez se repita. Medo de que, num belo dia, estaremos enviando para a fogueira índios e imigrantes, vicia­dos e mendigos, e todos aqueles que não se encaixarem em nossos padrões miúdos e míopes.

É o que a Tânia, o Nathan e o Douglas gostariam de fazer: des­truí-los. Eliminá-los. Acabar de vez com “essa praga”.

E foi exatamente o que Adolf, de sobrenome Hitler, fez.

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